<$BlogMetaData$/>
Peixe na rede Busca:
Arquivos:  Creative Commons LicenseEsta obra está licenciada sob uma
Licença Creative Commons
e tem alguns direitos reservados.
2 de abril de 2006
A cidade que não existe (a menos que...)
A cidade que não existe (a menos que...)
Eu já falei aqui que não tenho Internet para usar, não tenho rádio para ouvir e não tenho time de futebol para tocer (aliás não tenho time de nada pra torcer). Certamente, alguém diria: "...mas existem coisas muito mais importantes, ou mesmo mais legais para se fazer..." Concordo plenamente, então vamos ver o que eu poderia fazer... Humm... Bom, eu tenho que trabalhar... Vamos começar por aí.

Acordo cedo, muito mais do que poderia, pois não temos sistema de transporte público (a menos que você considere sistema de transporte, um monte de linhas de ônibus que passam por onde querem, nunca por onde o passageiro precisa, um monte de kombis que fazem o que querem, duas linhas linhas de metrô que atendem menos 1/6 dos bairros da cidade e linhas de trêm que apenas tangenciam a cidade). Eu desisto de esperar o ônibus e decido ir de Niva. Niva é o carro ideal para trafegar por aqui, pois entre minha casa e meu trabalho (24 km de distância), não tem ruas (a menos que você considere rua, pistas de motocross, com inúmeros buracos - às vezes crateras -, solavancos, e remendos mal feitos). Obviamente, chego atrasado, pois não temos trânsito (a menos que você considere sinônimos "transitar" e "demorar 15 minutos para andar 30 metros"). É claro que isso acontece, muito porque também não temos guardas de trânsito (a menos que você considere guardas de trânsito, pessoas que, ao invés de tentar organizar o trânsito, ficam tentando pegar de surpresa infratores eventuais apenas para arrecadar dinheiro para a prefeitura, para o governo ou para si mesmo). Está bem, eu sei que essa situação se deve também à falta de educação dos motoristas e pedestres, já que educação é outra coisa que não temos (a menos que agora educação seja, entre outras coisas, cuspir no chão, urinar como cachorro na primeira árvore, poste ou muro que encontrar, falar aos berros, xingar e - principalmente nesse caso - achar que sua pressa é mais importante que a dos outros). Mas também pudera, não temos nem escola (a menos que um conjunto de professores despreparados e sem equipamento e técnicos administrativos negligentes seguindo regras que, para manter boas as estatísticas, aprovam os alunos mais ignorantes dentro de um edifício caindo aos pedaços seja considerado escola).

Mas tudo bem, eu consigo chegar ao trabalho - já desgastado mas chego. Durante o dia, alterno momentos de desgaste e descontração. Tenho bons colegas, mas no trabalho continuam problemas com Internet, faltas de energia eventuais e problemas com telefonia - afinal também não temos telefonia (a menos que se considere telefonia, empresas mal administradas e com funcionários incompetentes que não são fiscalizadas pela agência pública que tem apenas isso como função). Na volta para casa, chove. Ainda bem que estou de Niva, pois a já mencionada falta de educação do povo e a inoperância de autoridades favoreceram o surgimento de enchentes em todo lugar. Além de tudo, tenho que torcer para que não ocorra nenhum acidente, pois também não temos sistema de saúde (a menos que hospitais municipais, estaduais e federais superlotados de pacientes e vazio de profissionais e equipamento que deixam pessoas morrendo em macas frias ou mesmo no chão seja considerado sistema de saúde - talvez planos particulares de saúde resolvessem caso não tivessem preços extorsivos a exemplo do preço dos remédios). Apesar disso tudo, eu ainda chego em casa...

Mas a semana é estressante mesmo. Então vou relaxar no fim de semana. Como não tenho time pra torcer - o que, diga-se de passagem, não faz muita diferença, uma vez que também não tenho um estádio para ir (a menos que você considere um estádio gigante, mal administrado, mal conservado e com cheiro de urina) -, vou procurar um passeio turístico pra fazer. Isso tem aqui, mas apenas graças à natureza (que diga-se de passagem tem cada vez menos), pois, fora isso, só tenho uma infinidade de centros culturais para visitar... Infelizmente, no caminho eu me perco, por que aqui não tem placas (isso não tem mesmo, as poucas que tem estão mal localizadas e mal conservadas). Vou parar no meio de uma favela em meio a um tiroteio entre traficantes, por que aqui não tem polícia (a menos que você considere polícia duas organizações sem coordenação formadas por indivíduos mal pagos, mal equipados e, em sua maioria, mal caráter). Volto amedrontado para casa, pois isso eu ainda tenho. Ainda, pois na verdade não sei o que é realmente meu. Pago tantos impostos pelas minhas coisas (e mesmo para adquirir coisas novas) que fico na dúvida...

Isso não é bem uma reclamação, pois tenho consciência de que faço parte desse sistema. Porém infelizmente não posso mudar nada sozinho. Eu contava com a ajuda de um prefeito, mas isso não existe aqui (a menos que você considere prefeito, alguém que gastou o dinheiro do povo tão bem em seus dois primeiros mandatos e que em menos de 6 meses abandonou tudo em nome de objetivos pessoais). Talvez vereadores pudessem ajudar, mas eu até esqueço que eles existem - se é que existem. Governador? nem pensar, também não temos e quando achamos que temos, vemos depois que na verdade é um secretário que apenas tenta empurrar os problemas com a barriga (ou entregar tudo "nas mãos de Deus") e fazer auto-propaganda.

A conclusão óbvia a que chego é que um lugar com tantas carências, que não tem prefeito ou governador simplesmente não existe. Resumindo: O Rio de Janeiro não existe. P
topo megafone carta clip lapis
Gostou do que leu? Salve e compartilhe.
Delicious Add Reddit Add to diigo Add StumbleUpon Add Google Technorati this blog
Página desenvolvida e mantida por
Márcio Vinícius Pinheiro.
Esta página é melhor visualizada com resolução de tela de 1024x768. Recomenda-se também a utilização navegadores que respeitam as normas do W3C, como o Mozilla Firefox e o Ópera.
Esta página é apenas uma pequena amostra do Peixena rede. Visite a página principal e encontre muito mais.
Se não encontrou o que queria, vá para página principal ou use o campo de busca no alto da tela.

PNR desde 2005